18

Posted in Prosa on 03/23/2009 by Seba

 

hoje roubei mais uma foto sua. queria poder gravá-la na retina. bem de perto. mas me despertasses o crime. a violação da lei. o furto fugaz de um olhar distraído. pena que tuas fotos não vem acompanhadas de boa noite. bom dia. durma bem. pena que teus retratos não me sussurram nada. não me dizem coisas sobre o roçar dos segredos. frases entre as pausas e pausas durante o verbo. tuas fotos não me acalantam. não embalam nenhum mal sono meu. tuas fotos não enxugam o suor. nosso suor. te roubo há tempos, já te falei. as fotos tornaram-se objetos mais recentes mas há tempos te roubo algo. sorrisos tenho um baú antigo cheio. silêncio teu já guardo uma leva. já quis te roubar lágrimas para que não chorasses sozinha. mas não dá. lágrimas só a nós pertence. louco o que rouba lágrimas. louco o que coleciona fotos. não sou louco. de ti, mais que fotos, coleciono a respiração ofegante dos que perdem o folêgo nas madrugadas que nunca existirão.

.

17

Posted in Prosa on 03/23/2009 by Seba

 

hoje não é mais segunda-feira como foram tantas outras de que ainda me lembro. nenhuma segunda-feira será como antes. nenhum domingo. nenhuma madrugada e nem qualquer névoa que por aqui passe, será como as névoas que por aqui passaram. os pássaros ficaram sem voz. já não me pedem mais água e comida no portão. agora me pedem café com leite. olho pela minha janela e ainda vejo qualquer lembrança. vejo coisas presas. sentimentos. toda uma parafernália de sentimentos atravancando o caminho. eles sempre atrapalham. sempre. não nos deixam livres para nada. depois que alguém resolve dizer “não” parece que muito foi mudado. não foi. ainda me resta um porta-retrato vazio sobre a mesa. olho-o diariamente há mais de três anos. quem sabe agora eu o vejo como sempre deveria tê-lo visto. vazio.

.

16

Posted in Poesia on 03/19/2009 by Seba

 

 

 

 

Solidão:

 

muito silêncio pra pouco eu

 

 

 

 

 

.

15

Posted in Prosa on 03/16/2009 by Seba

a ressaca tráz consigo o cansaço das noites vividas, das tardes ao sol, mesmo não gostando de sol, das tardes de fotos e imagens para a prosperidade, das tardes que guardam em algum canto o cheiro de urina de algum desesperado, de alguém que não pôde esperar, de alguém, que talvez, nem tinha ninguém para o esperar. a ressaca também tráz o dever da consciência feita. da vida ao extremo, no limite, ali na corda bamba e a alegria de chegar do outro lado, de chegar mais uma vez ao outro lado, de viver mais um dia no limite, no limiar do que é real e do que queremos que seja real. entorpecimento útil sempre útil. o bom é que desta vez não foi sozinho. haviam testemunhas e cúmplices e gente de toda a espécie na floresta comigo. delírios, delírios, delírios. não consegui ver o céu. as copas das árvores não deixavam. queriam-me só para elas. para testemunhar todas suas belezas. todos os massacres que se concretizam sob as copas das árvores belas que cobrem todo o espaço do quintal. e o gato preto? arrumou uma namorada. temo por ele. quero que seja feliz. quero e disse para ele. dialoguei com o gato preto e sua namorada a noite toda. eles me olhavam e eu sabia que queriam dizer-me algo. eles balbuciavam coisas como quem teme falar segredos aos humanos. mas eu os ouvi com coração aberto. abri meu peito podre aos animais. ao gato e à gata dele. eles entraram de mansinho. rasparam as unhas um pouco sobre meu coração. e deitaram. ambos. com o sorriso que existe quando os animais se apaixonam. esse mesmo. você já esqueceu. e eu quase. até ontem.

14

Posted in Poesia on 03/10/2009 by Seba

 

essa chuva

ela nunca vem sozinha

e nunca vem com boas intenções.

 

quando não é tristeza é frio.

 ela passa essa chuva.

mas nunca passa sozinha.

deixa sempre uma cama desarrumada,

uma janela com lembranças,

uma poça pedindo água.

.

13

Posted in Prosa on 03/04/2009 by Seba

hoje quero ouvir Chopin e ler poesia feita por mulher. “o amor que morre aduba o solo do meu peito”, diz ela. e “ao invéz de crus, brota uma rosa”, diz ela. e me diz isso e não me olha nos olhos. sei que não é para mim. mas vale igual. uma vez a vi. minutos depois, sentindo que a perderia e que não a queria perder, corri pela avenida de uma cidade de pedra e mar e solidão. queria encontrá-la e não conseguia. olhava nos cafés, nas vitrines – podia ser uma peça exposta essa mulher – dentro dos automóveis, dentro de mim sabia que estava e sabia que não queria perdê-la. a encontrei num café mais adiante. suado parei. pude olhá-la alguns milésimos de segundos antes de ir abraçá-la. abrecei-a. olhei-a nos olhos por alguns segundos. tudo o que eu tinha para lhe dizer, engoli. engoli também a têz daquela pele. pouco lembro de sua voz. não me recordo da cor dos seus olhos. as fotos que vejo não refletem a verdadeira cor e a verdadeira cor não se reflete nas fotos que vejo. ela se olha no espelho. eu me perdi num faz algum tempo. quem sabe nos encontramos assim em alguma data futura. junto aos cacos. refletidos.
.

12

Posted in Poesia on 02/27/2009 by Seba

 

se fosses pedra

como sei que

algum dia

quisesses ser

 

não me importaria

encontrar-te

pelo caminho

 

não importaria

o caminho

 

se soubesse nele

encontrar parte

desse sonho

 

que já foi

ser pedra

gata escaldada

o próprio caminho

 

de outro

 

apenas queria

pegar tua mão

se nesse dia

em teus sonhos

 

fosses aquela

que ergue

os olhos

em minha

direção