10

 

Diagnosticada que não seria mulher,

teve em vida todos os preparativos para sua morte.

Flores foram calculadamente plantadas

para serem colhidas quando ela completasse

os seus quatorze anos.

A primeira palavra que ensinaram-na a falar

foi “Adeus” e sobre lágrimas sempre evitaram conversas.

Desde cedo sempre teve incentivado o gosto

pela leitura – a poesia – propriamente dita.

Versos tristes e autores melancólicos

sempre foram sua preferência.

Amou a vida desde então.

A família criara uma obsessão por funerais e

tanto quanto ir a missa, ver os mortos tornou-se

um agradável hábito.

Não sentia felicidade quando convidada para um, mas

uma sincera simpatia com todo o circo.

“Quando chegar minha vez, quero muitas crianças”,

disse ela certa noite enquanto sua mãe

tristemente lhe beijava o rosto e riscava em

diagonal mais um número entre tantos

de um enorme quadro colorido

colocado em seu quarto.

 

Diria que ela viveu sua vida;

viveu apenas e nunca soube o que era existir.

 

Diagnosticada que não seria mulher

teve seu coração cortado enquanto menina.

 

Todos silenciavam e percebeu que era um

silêncio, que outras crianças não tinham,

que a incomodava.

Ganhava todos os presentes e sempre

eram os mais lindos.

Ganhava todos os abraços e eram os mais duradouros.

Quis uma resposta, mas sua angustia só fazia

aumentar o tempo duradouro das despedidas.

 

Todos sabiam que quando ela menstruasse, seria

o fim – ela não.

Todos esperavam que fosse o último abraço – ela não.

Completou quatorze anos e no seu aniversário

as velas apagaram-se sozinhas.

Não houve música, nem palhaços e nem mágicos.

Não houve últimos abraços e naquele dia

foi poupado o último número do quadro

colorido que anunciava tristemente o início

de uma nova vida para os abraços

que despediram-se sem saber que era adeus.

.

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Uma resposta to “10”

  1. Gostei, mas não sei… melancolia… minha menina sangraria e viraria vampira! Abração, rapa!

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