Arquivo para fevereiro, 2009

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Posted in Poesia on 02/27/2009 by Seba

 

se fosses pedra

como sei que

algum dia

quisesses ser

 

não me importaria

encontrar-te

pelo caminho

 

não importaria

o caminho

 

se soubesse nele

encontrar parte

desse sonho

 

que já foi

ser pedra

gata escaldada

o próprio caminho

 

de outro

 

apenas queria

pegar tua mão

se nesse dia

em teus sonhos

 

fosses aquela

que ergue

os olhos

em minha

direção

 

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Posted in Prosa on 02/24/2009 by Seba

 

meu coração existe paralelamente ao mundo. não consegue, de forma alguma, encontrar o ritmo desta entoada insolente a que se submetem os outros todos que vivem, ali, do outro lado da paralela linha surda e muda e cabisbaixa. conheço dezenas assim. dezenas não. dá para contar nos dedos de uma mão os que vivem do lado de cá. mas milhares são os que ainda não ultrapassaram este muro de mim. e não tem arame enfarpado. e não tem guaritas de proteção. e não tem alarmes. e é seco também. e não passa uma brisa também. meu coração já foi mais úmido. se alguma sonda espacial pousassse sobre ele, saberia facilmente que ali já existiu vida também. e já correu lagos. até fósseis poderiam ser encontrados aqui, do lado de cá de mim sem arame enfarpado. sem alarmes. e seco também. há uma meia-água de vida aqui ainda. ainda. 

.

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Posted in Poesia on 02/22/2009 by Seba

 

Diagnosticada que não seria mulher,

teve em vida todos os preparativos para sua morte.

Flores foram calculadamente plantadas

para serem colhidas quando ela completasse

os seus quatorze anos.

A primeira palavra que ensinaram-na a falar

foi “Adeus” e sobre lágrimas sempre evitaram conversas.

Desde cedo sempre teve incentivado o gosto

pela leitura – a poesia – propriamente dita.

Versos tristes e autores melancólicos

sempre foram sua preferência.

Amou a vida desde então.

A família criara uma obsessão por funerais e

tanto quanto ir a missa, ver os mortos tornou-se

um agradável hábito.

Não sentia felicidade quando convidada para um, mas

uma sincera simpatia com todo o circo.

“Quando chegar minha vez, quero muitas crianças”,

disse ela certa noite enquanto sua mãe

tristemente lhe beijava o rosto e riscava em

diagonal mais um número entre tantos

de um enorme quadro colorido

colocado em seu quarto.

 

Diria que ela viveu sua vida;

viveu apenas e nunca soube o que era existir.

 

Diagnosticada que não seria mulher

teve seu coração cortado enquanto menina.

 

Todos silenciavam e percebeu que era um

silêncio, que outras crianças não tinham,

que a incomodava.

Ganhava todos os presentes e sempre

eram os mais lindos.

Ganhava todos os abraços e eram os mais duradouros.

Quis uma resposta, mas sua angustia só fazia

aumentar o tempo duradouro das despedidas.

 

Todos sabiam que quando ela menstruasse, seria

o fim – ela não.

Todos esperavam que fosse o último abraço – ela não.

Completou quatorze anos e no seu aniversário

as velas apagaram-se sozinhas.

Não houve música, nem palhaços e nem mágicos.

Não houve últimos abraços e naquele dia

foi poupado o último número do quadro

colorido que anunciava tristemente o início

de uma nova vida para os abraços

que despediram-se sem saber que era adeus.

.

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Posted in Poesia on 02/19/2009 by Seba

 

os ventos

todos eles livres

pelos bulevares

da liberdade

 

sinto-os

nos envolvendo

ouço-os

sussurrarem algumas

palavras aos nossos

ouvidos do lado de cá

 

“gritem”

“olhem lá”

dizem eles

e não enxergo nada

 

quando nos abraçamos

alguns deles

ficam presos

entre minha barba

e teu cachecol

mas então

não mais falam

 

neste momento

silenciam

alguma coisa

que não entendo

muito bem

 

mas não devemos prendê-los

para sempre

 

é necessário

que nos separemos

para que

os ventos sigam

pelas palavras

 

se o mundo inteiro

se abraçasse

não suportaríamos

a dor toda que é o silêncio

 

 

Ganha pão do Poeta

Posted in Poesia on 02/18/2009 by Seba

Abro hoje uma pausa. Este é meu ganha pão. Pois o poeta precisa comer, comprar livros, beber, pagar contas. Elas todas não dão pausa e muito menos são poetas. Tive que me render, ok, assumo. Mas não me vendi. Entro nele para bater de frente. Para encará-lo nos olhos e não deixá-lo respirar. Hoje veio a conta do telefone. Maldito. Raramente ouço voz amiga. Só coisas do sistema. Me liguem quando quiserem; adoraria ouvir um poema por telefone. (47) 33481308. Mas estou aqui. De braços abertos e luvas de boxe nas mãos e sem protetores. Cara limpa. Dentes à mostra. Entrei no sistema e encontrei o ar agradável do desafio. Essa é minha arma e estamos, tenho certeza, do mesmo lado da trincheira.

www.camisariaopiniao.blogspot.com

 

E vamos à luta.

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Posted in Poesia on 02/17/2009 by Seba

 

não tenho dinheiro

não tenho carro

não tenho emprego

e amo um amor que não tenho

 

quase sempre me pedem

para seguir outro caminho

 

caminhos que desconheço

atalhos infelizes

e outras notáveis rotas de fracasso

 

parece ser insuportável para uns

que eu queira apenas ver o mar

 

é inadmissível à outros

que eu faça meu próprio caminho

 

me dizem quem devo amar

me ditam as regras de como devo respirar

de como devem ser os batimentos

do meu coração

e até já tentaram mudá-lo de cor

 

me rebelei

 

e em silêncio (porque penso que assim devem ser feitas as coisas belas)

fiz justamente o que queriam impedir-me

 

olhei o mar

brinquei sozinho no parque

confiei

olhei as estrelas

e tirei horas de minhas noites

para escrever poemas

 

que me queimem

 

mas faço meu próprio caminho

 

choro sim

por que é duro

quase sempre

 

mas é quando ouço das árvores e flores e pássaros

um canto de recompensa

 

é que riu também

.

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Posted in Poesia on 02/15/2009 by Seba

 

ela tem outras

tatuagens escondidas

 

essa eu já sabia

antes mesmo

de cortar a carne

 

pois ela é

riso na carne

 

mais do que choro

 

pois ela é

alegria na carne

 

mais do que

a gente vê

 

pois queremos

muitas vezes

a coisa errada

a marca errada

e ela não pode

ser vista assim

 

tem que se

olhar pelo

canto do olho

 

como quem

 

disfarçadamente

 

 a observa

por trás

das folhas

das árvores

 

brincando

distraídamente

no silêncio

do seu quarto