Impressões sobre a exposição “Pontes do Mundo Todo”, de Fabiana Langaro Loss.

Postado em Poesia em 08/27/2009 por Seba

As Pontes de Loos

(Impressões sobre a exposição “Pontes do Mundo Todo”, de Fabiana Langaro Loos, por Sebastião Paulo do Aragão – poeta e homem livre)

Quando as encontrei, estava a caminho de outro destino. Nas correntes do vermelho cansado, desviei meu curso. Ao contrário de outras abstrações de arte, as pontes de Loos nos convidam à uma natural aproximação, somos convidados a exercitar outra arte – a observação mediativa da obra de arte. Na delicadeza aveludada dos detalhes, nos aparentes infantis traços negros, que brincam de mãos dadas com o branco dissonante de proporções e vibrações perfeitas – vislumbramos o talento de uma grande artista. Nas pontes de Loos, percebemos o equilíbrio entre rio e aço; força e graça e não nos cabe desvendar qualquer possível estrutura secreta, mas contemplar. Nos resta sentir.

Dos quadros de menor dimensão, destaque para a ponte de Rialto, com sua geometria despreocupada e claro domínio técnico no lidar dos tons; a Ponte Capela, com traços mais decididos e cores limítrofes, deixando ao detalhe branco a necessária e precisa timidez e a Innsbruck, que nos faz permanecer atentos, que nos faz querer tocar sua textura – o que é rio? o que é caminho? Todas as obras de menor dimensão tem um equilíbrio entre si, como se estivessem a serviço de uma só estrutura. Os detalhes em branco, repito, tem a proporção exata que o conjunto existe.

As obras de maior dimensão são um caso à parte. Ponte Santa Trinita, Sant´Angelo e Charles Bridge, nos colocam suspensos sobre todo o cenário; ângulo insólito e privilegiado. A inversão total de valores e sentimentos, a mudança de curso – destacando devidamente o preto – e as novas dimensões, finalizam – pois penso que sim, devem ser as úlitmas obras a serem vistas pelo público – com chave de outro, minhas andanças por este universo, até então desconhecido, da arte de Fabiana Langaro Loos. Meu único porém, é o inadequado local da exposição. Portas muito próximas da rua, sons de carros e de toda ordem e a péssima iluminação, estão totalmente fora de qualquer similaridade com a sensibilidade sentida nas obras. Mas, porém, todavia, contudo, As Pontes do Mundo Todo não se deixa abalar por isso.

Não conheço o passado artístico da Fabiana, mas arrisco dizer que durante a construção de suas pontes, ela tenha se deparado com a possibilidade real de alcançar novas margens em sua trajetória. Mais do que a obrigação de amadurecimento natural do artista, me refiro a alguma descoberta decisiva para o futuro incerto. Que seja de universos cada vez mais fantásticos, de pura arte para nosso deleite. Vida longa à Fabiana Langaro Loos.

NOTA DA ARTISTA: A exposição poderá ser visitada até dia 27 de agosto de 2009, na Galeria Municipal de Artes da Fundação Cultural de Itajaí (Rua Lauro Muller, 53), em horário comercial. E em 26 de setembro de 2009, a exposição “pontes do Mundo Todo” será aberta na Colorida Art Gallery em Lisboa, Portugal.

Conheça o trabalho da artista: www.fabianalangaroloos.com.br

PS: ainda estou sem net. Eainda estou com saudades de todos. Até.

20

Postado em Poesia em 03/27/2009 por Seba

 

 

 

felizes os enamorados

que não sentem o

passar das horas

 

os infindáveis

passar das horas

 

enquanto o mundo

caminha para o seu fim.

 

pobres felizes são eles

 

que entreolham-se

 

e não sabem a dor

que o olhar tão

próximo esconde

 

felizes eles

 

que não sentem a dor

que é enxergar a

solidão alheia como

se fosse sua própria

desconhecida solidão.

 

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19

Postado em Prosa em 03/25/2009 por Seba

 

hoje estou cansado. mais do que o normal dos dias e das noites e das madrugadas. hoje estou cansado sim. cansado de também andar por aí recolhendo pérolas que sei não foram feitas para mim. mar revolto. revolto o mar das pérolas que recolho por aí. hoje estou cansado. cansado mais que o normal de todas as noites e madrugadas e tardes. não como antes hoje preciso deitar-me. logo mergulharei novamente e preciso estar forte e com o corpo descansado para procurar pérolas que sei não foram feitas para mim. fiquei pensando qual o perfume das pérolas. fiquei tentando imaginar um cheiro para o perfume das pérolas. e fiquei pensando em como sentir o perfume da pérola sem que ninguém perceba. sem uqe ninguém veja. sem que ninguém imagine que um dia senti o perfume da pérola. a que não foi feita para mim. a que está protegida pelo mar revolto. a que está. hoje estou cansado mais do que nunca. estou cansado e preciso repousar. minha cabeça dói. meu coração bate rápido. e não cansa ele de fazer isso. sempre na contra-mão do que quero.

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Postado em Prosa em 03/23/2009 por Seba

 

hoje roubei mais uma foto sua. queria poder gravá-la na retina. bem de perto. mas me despertasses o crime. a violação da lei. o furto fugaz de um olhar distraído. pena que tuas fotos não vem acompanhadas de boa noite. bom dia. durma bem. pena que teus retratos não me sussurram nada. não me dizem coisas sobre o roçar dos segredos. frases entre as pausas e pausas durante o verbo. tuas fotos não me acalantam. não embalam nenhum mal sono meu. tuas fotos não enxugam o suor. nosso suor. te roubo há tempos, já te falei. as fotos tornaram-se objetos mais recentes mas há tempos te roubo algo. sorrisos tenho um baú antigo cheio. silêncio teu já guardo uma leva. já quis te roubar lágrimas para que não chorasses sozinha. mas não dá. lágrimas só a nós pertence. louco o que rouba lágrimas. louco o que coleciona fotos. não sou louco. de ti, mais que fotos, coleciono a respiração ofegante dos que perdem o folêgo nas madrugadas que nunca existirão.

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17

Postado em Prosa em 03/23/2009 por Seba

 

hoje não é mais segunda-feira como foram tantas outras de que ainda me lembro. nenhuma segunda-feira será como antes. nenhum domingo. nenhuma madrugada e nem qualquer névoa que por aqui passe, será como as névoas que por aqui passaram. os pássaros ficaram sem voz. já não me pedem mais água e comida no portão. agora me pedem café com leite. olho pela minha janela e ainda vejo qualquer lembrança. vejo coisas presas. sentimentos. toda uma parafernália de sentimentos atravancando o caminho. eles sempre atrapalham. sempre. não nos deixam livres para nada. depois que alguém resolve dizer “não” parece que muito foi mudado. não foi. ainda me resta um porta-retrato vazio sobre a mesa. olho-o diariamente há mais de três anos. quem sabe agora eu o vejo como sempre deveria tê-lo visto. vazio.

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16

Postado em Poesia em 03/19/2009 por Seba

 

 

 

 

Solidão:

 

muito silêncio pra pouco eu

 

 

 

 

 

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15

Postado em Prosa em 03/16/2009 por Seba

a ressaca tráz consigo o cansaço das noites vividas, das tardes ao sol, mesmo não gostando de sol, das tardes de fotos e imagens para a prosperidade, das tardes que guardam em algum canto o cheiro de urina de algum desesperado, de alguém que não pôde esperar, de alguém, que talvez, nem tinha ninguém para o esperar. a ressaca também tráz o dever da consciência feita. da vida ao extremo, no limite, ali na corda bamba e a alegria de chegar do outro lado, de chegar mais uma vez ao outro lado, de viver mais um dia no limite, no limiar do que é real e do que queremos que seja real. entorpecimento útil sempre útil. o bom é que desta vez não foi sozinho. haviam testemunhas e cúmplices e gente de toda a espécie na floresta comigo. delírios, delírios, delírios. não consegui ver o céu. as copas das árvores não deixavam. queriam-me só para elas. para testemunhar todas suas belezas. todos os massacres que se concretizam sob as copas das árvores belas que cobrem todo o espaço do quintal. e o gato preto? arrumou uma namorada. temo por ele. quero que seja feliz. quero e disse para ele. dialoguei com o gato preto e sua namorada a noite toda. eles me olhavam e eu sabia que queriam dizer-me algo. eles balbuciavam coisas como quem teme falar segredos aos humanos. mas eu os ouvi com coração aberto. abri meu peito podre aos animais. ao gato e à gata dele. eles entraram de mansinho. rasparam as unhas um pouco sobre meu coração. e deitaram. ambos. com o sorriso que existe quando os animais se apaixonam. esse mesmo. você já esqueceu. e eu quase. até ontem.

14

Postado em Poesia em 03/10/2009 por Seba

 

essa chuva

ela nunca vem sozinha

e nunca vem com boas intenções.

 

quando não é tristeza é frio.

 ela passa essa chuva.

mas nunca passa sozinha.

deixa sempre uma cama desarrumada,

uma janela com lembranças,

uma poça pedindo água.

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13

Postado em Prosa em 03/04/2009 por Seba

hoje quero ouvir Chopin e ler poesia feita por mulher. “o amor que morre aduba o solo do meu peito”, diz ela. e “ao invéz de crus, brota uma rosa”, diz ela. e me diz isso e não me olha nos olhos. sei que não é para mim. mas vale igual. uma vez a vi. minutos depois, sentindo que a perderia e que não a queria perder, corri pela avenida de uma cidade de pedra e mar e solidão. queria encontrá-la e não conseguia. olhava nos cafés, nas vitrines – podia ser uma peça exposta essa mulher – dentro dos automóveis, dentro de mim sabia que estava e sabia que não queria perdê-la. a encontrei num café mais adiante. suado parei. pude olhá-la alguns milésimos de segundos antes de ir abraçá-la. abrecei-a. olhei-a nos olhos por alguns segundos. tudo o que eu tinha para lhe dizer, engoli. engoli também a têz daquela pele. pouco lembro de sua voz. não me recordo da cor dos seus olhos. as fotos que vejo não refletem a verdadeira cor e a verdadeira cor não se reflete nas fotos que vejo. ela se olha no espelho. eu me perdi num faz algum tempo. quem sabe nos encontramos assim em alguma data futura. junto aos cacos. refletidos.
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12

Postado em Poesia em 02/27/2009 por Seba

 

se fosses pedra

como sei que

algum dia

quisesses ser

 

não me importaria

encontrar-te

pelo caminho

 

não importaria

o caminho

 

se soubesse nele

encontrar parte

desse sonho

 

que já foi

ser pedra

gata escaldada

o próprio caminho

 

de outro

 

apenas queria

pegar tua mão

se nesse dia

em teus sonhos

 

fosses aquela

que ergue

os olhos

em minha

direção